Taekwondo brasileiro terá trio respeitável em Tóquio

O taekwondo brasileiro vai ter três representantes nos Jogos Olímpicos de Tóquio; no feminino Milena Titoneli (67 kg), e no masculino Ícaro Miguel (80kg) e   (68kg), o “Netinho”. Os lutadores conquistaram suas vagas na Qualificação Pan-Americano, sediado em Heredia, Costa Rica, ano passado.

A jornada Olímpica é conhecida pela dificuldade que impõe aos atletas, afinal é o ápice do desporte de alto rendimento, porém este ciclo teve sua realização arriscada devido à pandemia de Covid-19 que além de ter trazido grandes problemas para a preparação de atletas, o Brasil é um dos países que mais sentiram seus efeitos, conforme dados compilados pela Universidade Johns Hopkins dos EUA, é o terceiro em casos de infeções e segundo em mortes.

Em entrevista ao Yahoo Brasil, os três representantes brasileiros recordam os preparativos no meio da pandemia. Netinho treinou no terraço de sua casa, sem muitos recursos e lidou com a falta de tatame, porém com o tempo conseguiu se adaptar melhor às condições.

“Tive que me isolar numa chácara e seguir treinando durante seis meses com a minha antiga equipa, depois fiz dois períodos de treino totalizando 5 meses na Sérvia. Agora sigo com o treino no Rio de Janeiro. Tive que ter cuidados redobrados em tudo que faço no meu dia a dia para prevenção tanto minha como de meus companheiros”, relembra Titoneli.

Miguel ficou cego do olho direito ainda na infância por conta de um acidente doméstico antes de ingressar no taekwondo e mais uma vez precisou se reencontrar com um novo cenário. O peso-pesado, que quando menino queria ser ninja, também passou temporada no país do leste europeu ao lado dos colegas de seleção e também do isolamento para não apenas a concentração do grupo, mas também sua segurança.

Os atletas profissionais já conhecem as dificuldades desde o início de suas trajetórias e por tê-las superado, alcançaram níveis dos quais a grande maioria apenas sonha enquanto assistem filmes de artes marciais ou enfrentam noites de insónia nos seus quartos, para depois amargar sonhos frustrados ou interrompidos.

Netinho conheceu a modalidade coreana aos sete anos quando visitou um amigo recém chegado à sua rua, o qual tinha o pai mestre da arte marcial que o convidou para uma aula experimental. Titoneli era uma menina acima do peso, e com o tempo se converteu em uma lutadora aguerrida. Os pais de Miguel já haviam praticado a luta quando jovens, aos nove anos o talento já pedia para ser colocado numa luta.

Ao lembrarem as dificuldades pelas quais passaram, é compreensível entender que enquanto especialistas e autoridades internacionais acreditavam no cancelamento dos Jogos de Tóquio; por uma força interna, até aceitavam o adiamento, mas sabiam que o sonho de entrar no maior palco desportivo não lhes seria negado.

Milena Titoneli chegará em Tóquio com 22 anos tendo no currículo o ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2019, em Lima, Peru e o bronze no Campeonato Mundial de 2019 em Manchester, Inglaterra. Netinho tem 23 anos, também carrega uma medalha de ouro obtida no Pan de Lima e três bronzes no Grand Prix da modalidade obtidos entre 2018 e 2019. O lutador chamou atenção em 2014 ao obter o ouro na Olimpíada da Juventude em Tapei, China em 2014. Ícaro Miguel tem 26 anos, e obteve medalhas de prata no Mundial de Manchester, no Pan de Lima e no Campeonato Pan-Americano da modalidade em Spokane, nos EUA.

As Forças Armadas e gerações do passado ajudando um sonho a virar realidade

Os membros do taekwondo brasileiro encontram uma realidade um tanto melhor do que nos primórdios da modalidade, trazido em 1970 pelo grão-mestre Sang Min Cho, enviado pela International Taekwondo Federation. A luta foi por muito tempo confundida com outras modalidades de origem asiática como o karaté, oriundo do Japão, ou mesmo tido como uma excentricidade.

A arte marcial ganhou, em parte, o grande público brasileiro pelas revistas em quadrinhos Kung Fu da editora EBAL que trazia personagens de diversas editoras com temáticas de artes marciais, dentre eles Shang-Chi da Marvel, o qual terá um filme este ano, e a revista do Mestre Kim, inspirado no artista marcial coreano Yong Min Kim, ambas publicadas pela editora Bloch. Para os gamers é o estilo de luta do personagem Kim Kaphwan dos jogos Fatal Fury e King of Fighters da nipônica SNK.

Mesmo com todo trabalho feito dentro e fora dos tatames, o padrão obtido no Brasil não é comparável ao padrão de países europeus, sem mencionar a própria Coreia do Sul.

“Hoje em dia no taekwondo mundial é extremamente importante que os atletas tenham experiência internacional, e infelizmente as viagens para competições ficam muito caras para nós brasileiros. A maioria das competições são realizadas na Europa. Nesse caso, para os europeus, por exemplo, basta pegar um comboio ou um autocarro e muitas vezes já está no local da competição. Isso é uma grande dificuldade que temos já que para viajarmos para competir, além de ter um custo alto, são muitas horas de viagem, o que muitas vezes faz com que não seja possível a nossa ida aos campeonatos. Com isso, a disputa por pontos e a colocação no ranking se torna cada vez mais difícil”, aponta Titoneli.

O trio de atletas reconhece aqueles que antes vieram e pavimentaram o caminho, dentre eles a atual Coordenadora Técnica da Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD), Natália Falavigna, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e campeã mundial em Madrid 2005, que é tida como uma das principais referências para Titoneli.

Além de Falavigna, outros atletas obtiveram considerável sucesso como Maicon Andrade, bronze nos Jogos Olímpicos do Rio 2016; Diogo Silva, ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio 2007, conhecido pelo seu ativismo social, entre outros.

Miguel aponta como uma desses alicerces o trabalho realizado pelos técnicos da seleção nacional, os irmãos Clayton e Reginaldo Santos, os quais foram atletas da mesma equipa e “vem fazendo um trabalho incrível com recordes em campeonatos pan-americano e mundial.”

“Graças a um ótimo trabalho da nova gestão da Confederação de Taekwondo hoje temos mais apoio, mas ainda acho que ainda falta sermos mais vistos, para que empresas e outros setores se interessem mais para patrocinar e investir na base”, analisa Netinho.

Em edições passadas de Jogos Olímpicos, jornalistas brasileiros questionaram a atitude de alguns atletas em baterem continência no pódio. Entretanto, é da história recente do desporte nacional que as Forças Armadas patrocinam alguns quadros dos quais passam além de ter o suporte financeiro, um posto militar.

“O desporto brasileiro evoluiu muito com as Forças Armadas, eu mesmo sou muito grato à Marinha porque me deu oportunidade para que conseguisse mostrar meu potencial em competições fora do país”, reforça Netinho sobre o apoio das instituições militares.

Titoneli relata que antes da entrada da Marinha na sua carreira em 2017, as competições internacionais não eram muito constantes e chegou inclusive a vender rifa e fazer vaquinhas na internet para obter os valores necessários para custear suas viagens. Com mais recursos passou a ter mais experiência internacional e galgou posições maiores.

Questionado para esta matéria sobre a dificuldade das lutas nos Jogos Olímpicos, Ícaro Miguel resume o pensamento do grupo e é enfático: “Estamos falando de uma Olimpíada, os melhores do mundo estão disputando esse evento. Citar os nomes de dois ou três adversários seria injusto com a história de cada um deles.”

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